Sábado, 1 de Dezembro de 2007

Só os vestígios...


Todos os dias, os jornais me provam que sim, eu devo continuar escrevendo comédia o resto da vida.
Fernanda Montenegro bem o disse, e tenho certeza que fazer rir é cada vez mais difícil e que hoje, para arrancar lágrimas basta olhar logo ali...
Quem se arrisca um olhar mais desarmado para a Colômbia?
A imagem de uma outrora cheia de vida, combativa e brilhante jovem mulher me emociona, mas acima de tudo, me apavora.
Como pode estar acontecendo isso aqui ao lado, dezenas de pessoas arrancadas da vida, sumidas por anos e anos, sem que ninguém tenha certeza se estão vivos ou mortos, se podem satisfazer suas necessidades mais primárias...
Não consigo entender que se possa localizar um bueiro, via satélite; ou a tentativa de um mexicano atravessar a fronteira e entrar nos Estados Unidos...e por longos cinco anos, Ingrid Betancourt esteja assim, desaparecida sem deixar vestígios.
Por mais que eu tente me convencer, não acredito que tenham se esgotado as tentativas para libertá-la e aos demais. Só no grupo que, supõe-se, esteja junto com a ex-candidata a presidência da Colômbia, são dezesseis pessoas, inclusive quatro americanos.
Quem sou eu, além de uma mãe que não pode, sequer, imaginar que isso pudesse acontecer com minha filha. Eu enlouqueceria.
Onde estão os gringos que desencavaram o Sadam e que já reviraram o Afeganistão atrás do invisível Binladen?
Fico angustiada com a imagem esquálida e sem vida, olhar fixo no chão, ombros caídos e longos cabelos ralos, que parece nos dizer que enquanto tentamos rir, eles continuam ali,
“vivendo como mortos”, como o disse numa carta, sabe-se lá de quando, para a mãe e os filhos.
Meu pavor só aumenta quando o megalômano e debochado treinee de ditador arrota arrogância, e ameaça a Espanha, como se tudo pudesse, tudo lhe estivesse ao alcance.
Pior do que um líder fanfarrão, é um fanfarrão enlouquecido, que ainda encontra a quem liderar, e esse, valho-nos Deus, está bem aqui ao lado, que horror.
Não é mais uma imagem distante e exótica de um Idi Amim que semeava terror lá pela África. Trata-se de um vizinho, de compleição acaboclada bem familiar, com rompantes de insanidade cada vez mais freqüentes...Sem freio, sem controle.
No Brasil, o Homem-Aranha cedeu o posto de super-herói da hora para o Capitão Nascimento e na TV, o último tiroteio nos mostra que estamos sim, nos acostumando com essas coisas, bala pra lá, bala pra cá, é só se abaixar e seguir em frente.
O Pará, “ Geni” em tempo integral por conta dos trapalhões de plantão, se mantém na mídia negativa e já é detentor do troféu Pé na Lama. Gostaria de perguntar a cada envolvido, principalmente às mulheres, “ e se fosse sua filha?”. Ah... Não adianta, pensar que “isso” jamais aconteceria com alguém da própria família... Se tivessem essa reflexão, nada disso teria acontecido.
O que me vem à mente é que aqui se faz, aqui se paga, basta aguardar...
Para passar esse sábado, melhor um balde de pipocas e algo bem profundo no DVD.
“A Era do Gelo” e “Procurando Nemo” são a melhor escolha.
Mesmo assim, não consigo deixar de imaginar como estará ela, Ingrid, que hoje não é mais a ex-candidata a presidência, a mulher de respeito e projetos, a jovem arrojada e guerreira.
Ela é, apenas, refém. Uma morta em vida.
E enquanto isso, a gente tenta entender o que é ser humano, já que o gênero admite várias espécies. Seria isso evolução?
(imagem :www. globo.com)

Sexta-feira, 19 de Outubro de 2007

Carta da Amante


"Ricardo, querido.
Faz pouco você estava aqui em casa e eu já encontro coisas para dizer-lhe.Pois é.
Hoje eu percebi que precisava ser rápida, que é necessário falar um pouco sobre a sua proposta.
Nos últimos tempos você tem sido quase tudo na minha vida. Mas esse ‘quase’ faz muita diferença.Quando dois amantes se encontram depois dos quarenta, as coisas são diferentes. Algumas são definitivas, outras, nem tanto.
Sei que, no início, cobrei muito que você assumisse a sua ‘quase separação’ da Luiza. Nossas vidas são regidas por quase, mais ou menos, assim assim...
O tempo me fez aceitar e, sem trocadilhos, ‘quase’ agradecer que vocês permanecessem casados, apesar de mim.
De repente, depois de três anos de ‘quase termos assumido nosso caso’, você me participa que ela pediu a separação e que você vem morar comigo...Emudeci. E você, claro, achou que era alegria.Não, Ricardo, não era nada além da surpresa.
Nesses anos, fui me acostumando a não ter você nos finais de semana e ‘ter que’ preencher meu tempo; como você me estimulava a fazer para não perturbá-lo choramingando saudades, num celular que raramente atendia.
Tornou-se um hábito poder sair, encontrar amigos e jogar conversa fora, certa de que você não teria um ataque de ciúmes.Aprendi a gostar da cama vazia e da exclusividade do controle remoto depois que você saia, apressado, inventando desculpas para uma Luiza desconfiada e perigosa.
Cheguei a invejar a perfeição com que ela tratava suas roupas, mesmo sabendo (ela sempre soube, Ricardo!) que você as usava com ‘a outra’. Para ser franca, eu jamais passaria uma camisa sua, mesmo que você fosse o homem mais fiel do pedaço; coisa que nunca foi com sua esposa, porque seria comigo?
Eu reclamei de alguns hábitos seus e você me disse que ela convivia com isso numa boa.
Daí passei a imaginar se ela não seria a esposa ideal para você? A esposa ideal para um amante bem tratado...Cruel? Cínico? O mundo é assim.
Eu não suportaria o tsunami que o acompanha a cada banho, toalhas jogadas num canto e cuecas que você imagina possuírem um dispositivo de auto lavagem, se amontoando no cesto.
Aa sonecas que você tira no sofá, sem camisa...querido, só no sofá dela. Costas suadas ficam bem à borda da piscina e olhe lá.
Falando em piscina, eu não sou exatamente o tipo que prepara tira-gostos e vai apanhar a cerveja, o jornal, o telefone, o Engov...Não tive marido que me deixasse esses cacoetes, eu era a amante, lembra?
Não sei porque lembrei da nossa última discussão quando você me disse que sua ‘esposa’ seria incapaz de traí-lo, numa referência clara ao fato de ter iniciado nosso relacionamento quando ainda era comprometida.
Sabe, você deixou claro que ela era o tipo ‘esposa’ e eu...Bem, eu era a sua...Ah, deixa pra lá, pelo menos eu não tenho que suportar seu mau humor de domingo.
A ‘questã’, como diz a sua senhora, é que eu levei isso à sério.
Talvez explique minha mudez nervosa quando você, senhor de si e pretensamente de mim, informou-me que passaria a ser a sua cara-metade assim que ela o colocasse fora de casa – dessa vez definitivamente.
Eu o amo demais, só não mais do que a mim mesma e isso é mais um ‘quase’ nessa nossa quase história de amor.
Prefiro ficar só, livre para passear; dormir os finais de semana inteiros é preferível a ter a companhia do Júnior, querendo montar aeromodelos na minha mesa de jantar o circulando com dedos sujos de chocolate.
Não quero ser sua mulher, você não faz meu tipo de marido, lamento. E eu, Ricardo, não sou o seu modelo de esposa, pode acreditar. Jamais concordaria que você desaparecesse de segunda a sexta, numa academia que ninguém sabe, ninguém viu.
Logo no começo, eu teria topado e estaria uma craque no suflê de queijo.
Quero muito continuar nossa relação, mas do jeito que está, um ‘quase’ casamento.
Lamento que ela tenha tomado a decisão que você adiou tanto.
Mas você é um homem forte e vai conseguir arrumar um cantinho pra chamar de seu.
Ou quase. O meu...é só meu, anjo.
Finalmente, meu amor, não se culpe tanto por tudo isso.
A ‘depressão’ que levou a Luiza a optar pela separação, chama-se João, é colega de faculdade e quase da idade dela. Quase.
Aliás, ele estava naquela excursão para BH, quando a gente ‘quase’ decidiu morar junto, lembra?
Bom, isso não importa.Na segunda, te espero como sempre, depois do trabalho.
Um beijo no seu coração,
Nádia.”

Imagem:René Magritte-OS AMANTES,
Desde que Magritte pintou os amantes, estes como por magia deixaram de ter rosto. Nos jardins, nos cinemas, no bulício das ruas é frequente ver agora homens e mulheres sem rosto, abraçados.Todavia, tudo não passa dum equívoco. Sem dinheiro para pagar aos modelos Magritte optou por cobrir com um lençol o rosto inacabado dos amantes.

Domingo, 7 de Outubro de 2007

Avenidas, flores e alegria.


Outro dia recebi um e-mail com um elogio. Como aquelas dez linhas me deixaram feliz!
Mais que a vaidade que o gesto poderia ter suscitado, fiquei matutando porque as pessoas são tão parcimoniosas no elogio, no reconhecimento do mérito de algo que não as beneficie ...
Parece que isso custa muito , muito mais do que colocar a mão no bolso.
Hoje é fácil criticar, a globalização nos oferece possibilidades de espalhar palavras maldosas aqui e ali, sem pensar nas conseqüências.Na imprensa, então...Baixar o malho é que é “in”. Então tá. Ninguém pensa que “bulling” não acontece só nas escolas, entre adolescentes. Nós, os tais adultos, somos muito cruéis; criamos apelidos, pulverizamos notinhas maldosas e de fonte discutível. Nunca nos colocamos no lugar do alvo, só como baladeira - que é bem mais confortável - e tudo isso porque ‘sangue’ é o que faz sucesso.
Rasgação de seda...Ah, isso é bobagem, imagina só, perder tempo dando um brilhozinho no ego alheio...?
Mas como eu ando sempre na contra mão, não dou a mínima.
Com tudo isso na cabeça, volto para casa pela Duque, a Nova Duque. Está um luxo!
Quanta paciência o Dudu teve, heim? Foi tanto ‘teco’ e hoje, a avenida está lindona, e cada “senão” tem lá sua explicação, sua razão de ser.
Já ouvi gente ‘de bem’ reclamando que a prefeitura estava construindo casa para “aquele povo da vida da Barca’, que coisa!
O Brasil é “assim ó” de técnicos de futebol e administradores municipais...Para criticar, claro, pois para seguir as regras e atravessar no lugar, para colocar o lixo no lixo...Enfim, somos todos uns sabichões e eles é que não sabem nem construir uma avenidazinha!
Tenho vontade de parabenizar o prefeito. Desinteressada e reconhecidamente.
Apenas isso. Valeu, autoridade!
Lá me vou pela Duque para o Boulevard da Estação, que me recebe lindo, com um enorme lustre iluminando buffê de todos os sonhos.
Percorro cada mesa, cada recanto, sentindo-me uma privilegiada por desfrutar de tanta beleza.
Lembro do começo da Lúcia, que continua Dias, daqueles nossos anos dourados e que fez carreira como Carvalho; nome que lhe cai bem, tamanha força e elegância.
Admiro-lhe o bom gosto em cada detalhe, as Gipsofilas elevadas a mesma importância dos Lírios cor de rosa e de Rosas que vestiram um moderno lilás. Rosas Brasília, Amarílis, Lisianthos. Pingentes multifacetados, espelhos e luzes destacando Bocas-de-leão, Angélicas, Alstroemérias e mais Lírios. Fícus que pareciam esculpidos pelo vento.
Gosto de pessoas caprichosas, que mesmo podendo fazer só o ótimo, conseguem melhorá-lo mais e mais.
Abraço os anfitriões, com a alegria de quem pode participar daqueles momentos de felicidade e nenhuma ostentação.
Pessoas felizes conseguem transmitir isso em tudo o que fazem.
Não encontro a Lúcia, aquela das flores e detalhes.
Penso em abraçá-la por aqui, apesar da platéia.
Elogiar só nos faz bem. Que bom. Amém.

Domingo, 30 de Setembro de 2007

MUITO BEM NA FOTO!

Ái que inveja!

Sabe aquela foto ousada, que você sempre pensou fazer e não tinha coragem?


Você não precisa ser a Juliana Kametani, a Suzi da novela Belíssima, nesse ensaio do Marcelo Faustini, da revista Vip, que publicamos aí ao lado para ilustrar uma foto sensual de bom gosto.


Precisa ser gostosona? Que nada ! Precisa se gostar, isso sim!

Pois então! Lembra que você pensou em registrar o sucesso da última lipo, da dieta tão sofrida?

O Antonio é um fotógrado excelente, que registra esses e outros momentos, inclusive a dois, dignos de suas boas lembranças. (A gente quer sair bem na foto, né querida?)

Produção? A gente cuida, tudo muito discreto e com bom gosto.
Veja aí ao lado o post do Antonio Genésio, da "Olhar".
Essa foto, sim, vai ser para mostrar...ou deixar no seu quarto, só para quem desfruta da sua intimidade. Click! E...tim-tim!
Fotos: long sensual/olhares/sapo.pt








Sexta-feira, 28 de Setembro de 2007

Embaixo dágua.


Tomar um banho de chuva, um banho de chuva...


São doze e trinta de quarta-feira. Estou presa num engarrafamento gigante desde que um temporal enorme começou. Quase duas horas sem conseguir sair do Reduto.
Tento manter a calma – afinal, já perdi a reunião, e, com certeza o resto do dia está comprometido.
Uma caneta meio grudenta, derretida pelo sol e começo a rascunhar no verso da “Dieta da Proteína”; nunca vou conseguir fazer mesmo.
Tento imaginar o que está ocorrendo com Belém , essa cidade tão linda, que sofre tanto nas nossas mãos.
Passam boiando sacolas com lixo, numa propaganda negativa dos supermercados do bairro. Uma romaria “pluvial” de cocos, garrafas pet, laranjas, um assento sanitário quebrado, o tronco do que já foi uma boneca, caixas de papelão...
Somos todos, motoristas, lixo e ratos, ribeirinhos, ao sabor das águas que reclamam por onde escoar.
Subo no estribo do carro, tentando avaliar a situação. Atrás, um motorista de uma pick-up, dessas que fazem a gente se sentir um pontinho e eles se acharem donos da rua, grita: "Senta aí, tia, e acelera!”
Pena é que não disponho dos efeitos especiais bíblicos.
Não existe um único guarda, para colocar ordem nesse caos. Carros pequenos pifam, literalmente afogados. Mulheres parecem desesperadas e homens, muito aborrecidos.
A única coisa que sei é que não dá para fazer nada, a não ser pensar em como seria bem vinda, uma grande campanha para mostrar a nossa população, o que acontece com o lixo que despeja pelas ruas.
Engraçado é que, como todos temos um pé numa aldeia qualquer, adoramos banho; não é raro encontrar pessoas com os cabelos respingando, cheirando a limpeza. Mas com o lixo que deveria ser privado, não temos pudor ou educação e o tornamos público.
Mansões sem calçadas decentes, jogam nos “pés” das mangueiras, todo tipo de quinquilharia, casas são varridas e voam pela porta migalhas e restos dos nosso dias de porcalhões. Quem nunca viu uma boa residência , com o esgoto de pias, lavatórios e chuveiros, sendo despejado diretamente na vala, onde passam a navegar restos de arroz, feijão, macarrão e espuma de sabão e shampoo? Um espetáculo de falta de urbanidade. Desde que escoe para longe de casa...dane-se seu itinerário.
Fomos acostumados a reclamar da prefeitura “que não recolhia o lixo”. E agora, que ela recolhe? “Maiê, acabei!”
Nem se contasse com um exército de garis, jamais daríamos conta de tantos sugismundos, que aparecem em todas as classes sociais.
Sabe aquele tipo que leva a sacola (sempre ela, a infeliz) com todo tipo de restos, até o terreno baldio mais próximo e ainda acha que está fazendo a sua parte?
O caminhão vai passar ( diga-se , na minha rua, por volta das vinte e três horas...não falha!) mas para se livrar do incômodo, ele atravessa e joga o saco no canteiro, onde as ratazanas acham “de um tudo”. Na Pedro Álvares Cabral é assim. Em outras ruas, também.
Os berros de um voluntário me fazem voltar a realidade. Toma para si a responsabilidade de orientar os carros para retornarem de ré, até a Benjamim e dali, buscar a Rui Barbosa.
Uma das características “patognomônicas” do paraense é não se importar (muito) com uma chuvinha. Alunas de um colégio que tem nome de escola de teatro, passam, provavelmente ainda irão tomar dois ônibus até chegar em casa, com gripe e frieiras. Rapazes de outra escola as agridem, com palavrões e sem nenhuma razão aparente, a não ser a alegria, apesar da chuva.
Por que a falta de educação? Estou desanimada. Não com a chuva, eu aprendi a viver com o nosso clima, sou quase um anfíbio. Meu desencanto é não conseguir imaginar uma cidade melhor, enquanto nós todos não tomarmos umas aulinhas de civilidade.
Pena. Belém não merece.

T.P.N

(Chuva, de Oswaldo Goeldi)


Ao contrário do que parece, não sou esfuziante; não o tempo todo.
Tenho momentos de introspecção, ouço o que me diz o silêncio, coisa freqüente no final do ano.
É, meu amigo João Carlos, você não está sozinho nessa vontade de chorar sem motivo, nesse pensar nas diferenças, afinal, o Natal é lindo, mas nem assim deixa de ser a festa mundial das desigualdades.
E pessoas mais sensíveis pensam nisso, entre uma compra e outra.
Ontem voltava para meu bairro, o Marco. Num farol, um senhor, com roupas puídas esandálias quase ralas, atravessava a rua, sob a chuva, uma sacola com não mais de três pães.

Com uma das mãos acenava , garantindo que estaria em segurança, pedindo a passagem (que tinha direito), na faixa de pedestres.
Só a cena me fez soluçar. Era o contraste da humildade com a intolerância do trânsito, onde covardes se portam como valentões.
Chorei pela chuva, pelos pães, por nós.
Fui tomada pela solidão dos que não foram chamados para a festa do amigo oculto.
Nada é pior que a sensação de estar sobrando.
Dos que não estavam nos shoppings garimpando um presente por nem terem uma lista.
Deve ser um horror, pior do que se desculpar o tempo todo, por ter tantos a comprar que serão “apenas lembrancinhas”. Nada que se receba no Natal será “apenas” uma lembrancinha, e sim um enorme aviso, para não esquecer jamais, que alguém lembrou de você.
Tensão Pré Natalalina, esse fenômeno que nos faz derramar lágrimas e até pensar em quem adormece com fome ou dor, abateu uma amiga, exemplo de fortaleza, que pediu licença e, bravamente, chorou até borrar o rímel.
Sentia-se cansada de tentar conciliar o inconciliável, de manter-se de pé, quando a vontade é desabar.
No meio dessa roda viva de comes e bebes, mais bebes do que comes, de carros novos, DVDs, promoções, viagens para paraísos que provavelmente nem saberei localizar, encontrei uma das razões desse “tilt” que Noel traz a reboque.
Estamos todos no mesmo vagão desse trem, mas nem sempre conversamos, trocamos idéias ou sinceridades. Nem sempre pedimos licença para chorar de apreensão antes que sejam lágrimas de mágoa ou raiva.E pior, sempre existe alguém para levantar uma possibilidade do que não existe, iniciar o tricô dos mal-entendidos.
Ufa! No final do ano, a bagagem de mão está pesada e precisamos aliviar a carga. Deixar tudo num canto para iniciar o próximo de mãos quase vazias e forças para arrastar um container.
Essa é a vida moderna, tu-do que pedimos a Deus.

Só não lembramos do ônus: reuniões de condomínio, descontos nos contra-cheques, vestibular da filha amada, malha-fina, cheques que nem Ele sabe quando conseguiremos descontar, shopping lotado de pessoas indecisas, churrascos calorentos, carros estranhos na nossa vaga, o açaí que azedou...Tudo parece acontecer em dezembro!

Não existe herói que sobreviva com cara de super ou algum caráter.
Ontem eu chorei, sim. Até perder o fôlego e a paciência, que o filme na HBO estava mais interessante, e sabe?, não sou muito boa com essas depressões.
Peguei o telefone e desabafei com quem deveria, deixei fluir minhas incertezas e finalmente vi que tudo se esclarecia. Acabei com os ruídos da minha comunicação.
Não sou boazinha, pelo contrário, sou uma peste. Tenho meus momentos “Clodovil” e quando elimino alguém, é de caso pensado, favas contadas e conferidas.
Jamais voltei atrás pela certeza de saber que gangrena é caso para amputação e ponto.
Mas estou mais sensível; é o clima nublado, o calor intolerável, o céu em lágrimas e os meus hormônios enlouquecidos.
Resguardo-me feito uma ostra tagarela, isolada, mas teclando compulsivamente.Lá fora, a chuva, o calor, e a agitação, me lembram que o Natal vai chegar. E passar, amém.

Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Avó não é emprego. Ou a revolução de D. Rosa.


A Revolução de D. Rosa. (CRÔNICA)

Às seis estava de pé. Livrou-se da camisola de cambraia, vestiu o maiô, o roupão atoalhado, sandálias de borracha, sacola plástica e dois reais para o pão, “quentinho como Oscar gosta”.

O marido ressonava. Roncava, isso sim.

Na hidroginástica, colocou-se a matutar coisas que sentia há tempos, e não ousava externar. Nem pensar a sério.
Por que, bolas, o filho acreditava que seria um “prazer” recebê-lo em casa, cada vez que ele e a mulher resolviam “dar um tempo” ?

Um homem de quarenta anos ! Que fosse para um hotel!

Desarrumava a sala de costura e remontava a cama que estava na garagem, “prá levar para Salinas*”, há seis anos.

Esse era o seu território, onde bordava, assistia TV no velho aparelho preto e branco. Afinal, por que não tinha um em cores ?

O alongamento acabou.

Não foi lavar-se com anti-séptico (ela tinha horrooorrr de pano branco!)

Enxugou-se , ajeitou os cabelos, o roupão e rumou para a padaria.
Seu olhar pousou na pilha de sonhos, lindos, recheio amarelo brilhante e uma névoa de açúcar.
“Quanto é ?”
“Um real.”respondeu a moça que a atendia há...anos.
“E café com leite?”
“Um real.” repetiu.
“Quero os dois.”
“E os pães?”indagou a atendendente.
“Ficam para outro dia. Ah, é para comer aqui mesmo.” Acomodou-se no banquinho. Sentia-se eufórica ao dar a última mordida no sonho. Que os triglicerídios fossem pastar! Entrou em casa.
“E os pães?” , perguntou Oscar com cara de sono.
“Não trouxe”, respondeu.
“Como não trouxe ?”
“Esquenta um que sobrou de ontem!”.O chuveiro abafava sua voz.
“E você , não vem tomar café ?”.
“Já tomei”. Foi só o que ele ouviu. Pensou em ir lá, mas algo dizia para calar-se e procurar onde diabos ficava a torradeira.
A semana correu normalmente. Se fosse normal, ela não passar na padaria. Agora ele trazia os pães na volta do banco, onde trabalhou 45 anos e ia toda tarde saber “das últimas”. Falar mal do governo, da aposentadoria, ver a bunda das novas funcionárias, pensou Rosa. Lembrou-se de seu emprego.Desde a aposentadoria, não pisou na repartição. Seria mais fácil acostumar-se, sem ver o lugar onde vivera.
Fez-se domingo, mas não como os outros. Lá pelas treze, os filhos chegaram para o indefectível almoço, com esposas mal-humoradas e crianças.
Era sempre a mesma coisa.
Lingüiça, salame, queijo. Filé com batata frita pro Neto.. Não bastasse avô e pai serem “Oscar”, o pobre coitado é Neto. Lasanha para Jamile e o namorado, com aquele prego enfiado na sobrancelha .
S. Oscar estava nervoso. “Sua mãe está estranha .”
“Como?”
“Sei lá... parece outra .” A chegada da filha, discutindo com o marido e o bebê no colo encerrou o assunto.
D. Rosa, frente à nova TV, humildes quatorze polegadas, com o controle na mão.
“Mãe, onde estão as cervejas ? E a linguicinha ?”.
“Mãe, troca o Andrey, pra mim ?”.
“Que cervejas ? Que lingüiça ? Troca você que eu não suporto cocô de neném.”


O silêncio paralisou até o Neto, que arrastava o poodle pelo rabo.
“Co-mo?” balbucia Jr.
“Por acaso você é surdo ? Alguém me consultou sobre almoçar aqui ?”
“D. Rosa, inicia a nora magricela, nunca fiz questão de vir aqui, era para dar prazer a vocês...”
“Naraceli, minha filha , cala a boca. Eu sempre soube que vocês só vinham porque hoje, não tem empregada e é melhor comer e sair rapidinho, pois as crianças estão com sono. E a louça fica aí pra lavar, como se eu tivesse obrigação.”
“Mãe, está tomando remédio para emagrecer ?”
“ Raísa, quem se entope disso é você. Troca essa fralda que o menino está apodrecendo.E me devolve o conjunto de Corais, para usar no Bingo.”
“Onde?” pergunta a neta.
“No Bingo, Jamile. Ali, junto do motel que vocês vão...E não me tragam crianças, para irem ao Paráfolia. Eu e Oscar vamos no camarote Vip.”
“Vamos ?” indaga incrédulo Oscar.
“Chopp livre” completa.
“Ahhh, bom.” E ele era louco de discordar ?
“Mas e o almoço ?”
“Não fiz almoço! Vou comer no shopping”.
Amanda, mulher do Paulo, opina: “Acho melhor interditar...”
“Antes de me interditar, devolve o meu Vaporeto, que você levou no Círio de 2002. Eu vou fazer uma faxina na casa.E na família.”
Debochada, Naraceli provoca a sogra. “D. Rosa, tem alguma coisa que eu esqueci de devolver, além do Jr, o seu filho ?”.
“ Tem uma que você esqueceu de levar. A cama dele. Não o quero aqu, toda vez que você está na TPM”. Jr. riu e se ouviu o “plaft”, de um tapa nas costas.
“Ah! A casa em Salinas está à venda. Vou comprar um flat.” Rebuliço geral.
“Mãe, pirou? Aquela casa é...”
“Minha. E vou vender. Se quiserem comprar, organizar as férias, empregadas, exigências, incluindo tapioca com e sem manteiga, com e sem côco... fiquem à vontade.”
Paulo olha o pai . “Não me mete nisso. Vocês vão e eu fico.Até controle ela tem. Escolhe canal ...Deve ser a reposição hormonal.”
No restaurante, Berê, namorado de Jamile, arrisca: “Pô, me amarrei na tua vó. Poderosa.” Naraceli berra - “Cala a boca seu idiota!”
O tempo passou.
A casa foi vendida para o dono da concessionária, que deu um descontão no carro novo da D. Rosa. Bordô. Automático. S. Oscar, com vergonha, fez um up-grade no Gol 95 “inteiraço”.
Os almoços, agora, são agendados e cada um leva um prato. A louça... S. Oscar comprou uma lava-louças no Natal, além de uma jóia, que ele não é doido nem nada. A sala de costura foi reformada: ar, DVD e cama alta, para drenagem linfática.
O congelador agora é Frost-free. S. Oscar vai precisar. D. Rosa foi para o sul com um grupo da melhor idade.
“Pra onde a vó foi, mesmo?” pergunta Jamile colocando a lasanha no micro.
S. Oscar, responde, sem graça:“Pra Ocktoberfest.” Berê não resiste:“Aí... coroa sinistra.Poderosa!” .

* Salinas: praia do litoral paraense. (linda, aliás!)